Por Cláudia Bergo 2
A história do Vale do Aço retrata bem a exploração que caracterizou a colonização das Minas Gerais e do Brasil. Seu povoamento remonta há pouco mais de 100 anos e resulta de um novo ciclo exploratório iniciado quando as reservas auríferas se esgotaram. Seu crescimento acelerou-se na década de 50, com a descoberta de seu potencial siderúrgico.
Curiosamente, Santana do Paraíso, na época Taquaraçu, foi o primeiro povoado da região a tornar-se distrito, ainda no século XIX, incorporado à Comarca de Conceição do Mato Dentro. Depois, foi incorporado a Mesquita, juntamente com o distrito de Água Limpa, até sua emancipação, em 1992. Coronel Fabriciano pertenceu aos municípios de Itabira, Ferros e Antônio Dias, até sua emancipação, em 1948. Ipatinga pertenceu a Fabriciano até emancipar-se, em 1964. Timóteo, por sua vez, pertenceu a São Domingos do Prata e, posteriormente, a Antônio Dias e Fabriciano, até sua emancipação, em 1964.
O destino da região que veio a se transformar no Vale do Aço começa a ser traçado com a fuga da Família Real para o Brasil. Até então, o “bravo gentio” cuidava de manter à distância os exploradores e aventureiros. Sua fama já era notória em Portugal, graças à Academia de Ciências de Lisboa.
A necessidade de recuperar a Coroa Portuguesa, moral e financeiramente arrasada pelas tropas de Napoleão Bonaparte, tornou prioritária a colonização do vale do Rio Doce, estratégica para a importação e, principalmente, exportação de matérias-primas para a Europa, em crescente industrialização.
Não faltaram cartas reivindicando providências para a manutenção e segurança dos colonos, diante da ameaça dos índios. D. João VI, preocupado com as “agruras” de sua gente e, mais ainda, com o futuro de sua Real Coroa, declara, em Carta Régia , “Guerra Justa aos Índios do Vale do Rio Doce”, que perdura mais do que seu reino.
É o francês Guido Marlière quem abre as picadas no Vale do Rio Doce, instalando quartéis improvisados e controlando as ações dos índios, mais pela sedução do que pela violência. A presença de Marliére encoraja aventureiros, interessados na concessão de terras pelo regime de sesmarias. O conflito com os índios é inevitável: Marliére assume sua defesa e é ignorado pelas autoridades portuguesas do Brasil já Império.
Mal sabiam a dimensão da outra guerra que estava por vir, com a devastação das matas: a “maleita”. As dificuldades de acesso e a insalubridade retardam a colonização da região, projeto mantido pelo Império e cumprido à risca pelo governo da província, que continuava a conceder terras, a despeito da proibição. Descartadas as possibilidades de utilizar o Rio Doce como via de transporte, a história da região trilha outros caminhos.
O apito da Maria Fumaça anuncia os novos tempos republicanos e a Vitória Minas se apressa em conduzir nossas montanhas em direção ao Velho Mundo, enfrentando índios e malária 1e interligando os diversos povoados que se formam desde as primeiras chamas da siderurgia mineira.
É a Escola de Minas de Ouro Preto quem coloca “lenha” na grande fornalha siderúrgica e sacramenta o futuro dos povoados da foz do Piracicaba, que deixam de ser simplesmente caminho e tornam-se ponto de parada obrigatória das locomotivas, atraindo, assim, os moradores dos povoados vizinhos. Nossas matas são dizimadas para saciar o apetite de fornos mais belgo que mineiros, transformando camponês em carvoeiro e carvoeiro em operário.
Investidores não tardam a perceber o potencial da região que, nas décadas de 50 e 60, torna-se um Eldorado no leste mineiro. E o Vale do Aço vai sendo forjado por trabalhadores, comerciantes, empresários e muitos aventureiros. Entretanto, ideologias e interesses diversos acabaram por dividir o Vale do Aço em três municípios que, apesar de inúmeros problemas em comum, trilharam caminhos freqüentemente divergentes. Com a criação da Região Metropolitana, 38 anos depois, o “fim do túnel” se ilumina com perspectivas para reverter as conseqüências do que é por muitos considerado um “acidente de percurso”.
Referências/
1- Adaptação do capítulo de mesmo nome, apresentado no Plano de Ação Cultural de Ipatinga. Ver bibliografia.
2- Professora, pesquisadora, jornalista e produtora cultural. Editora do jornal Bula, da Associação Médica do Vale do Aço e do Guia do vale.
3- O povoado originou-se de 50 alqueires de terras que o Arcebispo de Mariana doou a Nossa Senhora da Imaculada Conceição para que fossem cedidos às famílias por meio de posse. Pertenceu ao município de Mesquita até 1948, quando foi incorporado ao recém-emancipado município de Coronel Fabriciano, já na condição de distrito e com o nome de Barra Alegre. Foi incorporado a Ipatinga com a emancipação do município, em 1964.
4- Habitavam a região os índios da grande família Aimoré (tapuias) e, mais especificamente no Vale do Aço, os da tribo Zamplam. A partir do séc. XVIII, os portugueses passam denominá-los Botocudos, apelido que surgiu da comparação dos enfeites que estes usavam, em suas orelhas e lábios, ao botoque (rolha com que se fecha o barril de cachaça).
5- Os episódios ocorridos com José de Assis Vasconcelos (1752) e Francisco Rodrigues Franco (1802) são alguns exemplos disto. Ver Cronologia.
6- Fundada em 1779, foi incumbida de estudar novas formas para Portugal obter lucros na exploração de suas colônias. Na primeira década do século XIX, o assunto do momento era o esgotamento das minas no Brasil. A Academia alegava que os impedimentos mais cruciais para desenvolver a região do Rio Doce eram os índios Botocudos, as febres e as cachoeiras. Propunham, para tal, o extermínio dos índios e o incentivo à mineração, agricultura e comércio na região.
7- Uma delas, enviada por Antônio Gonçalves Gomide, Procurador da Câmara, citada em Os borun do watu: "A nação dos Botocudos é inimiga essencial da espécie humana e como tal deve ser destruída e exterminada por direito".Ver referências bibliográficas.
8- A guerra aos Botocudos declarada em 1808, foi apenas uma das ações engendradas pela Coroa Portuguesa. As demais Cartas editadas neste mesmo ano estimulam a ocupação de terrenos, a mineração e autorizam a instalação de usinas na região, seguindo à risca a receita apresentada pela Academia de Ciências. Ver Cronologia.
9- Nome atribuído à malária, também conhecida como impaludismo, febre palustre ou "sezão".
10- As dificuldades de acesso e as enfermidades que assolam a região são relatadas pelo Juiz de Paz de Sant'Anna do Alfié, em ofício ao Presidente da Província, em 1861. Ver Cronologia.
11- Em 1822, D. Pedro suspende a concessão de sesmarias em todo o país. Porém, a Constituição de 1824 nada estabelece sobre a questão de terras. A despeito disto, na região do Rio Doce, a concessão de sesmarias continua até 1836. Esta lacuna legal faz com que a posse direta através da invasão (armada ou não) torne-se a forma mais comum de obtenção de terras. Somente em 1850, pensando também nas conseqüências da recém-promulgada lei Eusébio de Queirós - que extinguiu o tráfico negreiro -, é editada a Lei de Terras, regulamentando o acesso e o controle das terras pelo Estado, e, principalmente, impedindo que índios, ex-escravos e até mesmo imigrantes recém-chegados se tornassem livres proprietários através de posses, deixando os fazendeiros sem mão-de-obra.
12- Desde o Império, as estradas de ferro no Brasil vinham sendo construídas e exploradas pelos ingleses. Em 1902, as linhas férreas de Vitória-Peçanha e Araxá-Jatobá se fundiram e deram origem à Estrada de Ferro Vitória Minas. Era a solução que faltava para colocar nossas Minas mais perto da Europa. A ferrovia, a partir de então, avança ano a ano em direção ao interior mineiro. Ver Cronologia.
13- Até 1909 os índios Krenak resistem à passagem da Vitória Minas por seu território, que começa a ser invadido, também, por colonos. Entretanto, foram sendo dizimados e expulsos, embrenhando-se cada vez mais no que restava de mata, à margem esquerda do médio Rio Doce - provavelmente a região que hoje pertence ao Parque Florestal Rio Doce (Os borun do watu, p. 111). Em 1911, foi declarada a pacificação dos índios do Vale do Rio Doce, com a (tardia) criação do Serviço de Proteção ao Índio. Ver Cronologia e Referências Bibliográficas.
14- A doença tornou-se um forte obstáculo ao avanço da ferrovia, nas proximidades do Vale do Aço, região paludosa e ainda incólume. A situação ficou tão grave que a empresa foi forçada a buscar mão-de-obra na Bahia, uma vez que os trabalhadores das redondezas não se atreviam a embrenhar-se nas matas.
15- Em 1920, após estudar na Europa a possibilidade do emprego de carvão nacional na fabricação do coque metalúrgico, Domingos Fleury da Rocha, professor da Escola de Minas de Ouro Preto, apresenta resultados satisfatórios.
16- São José do Grama (Jaguaraçu), Babilônia (Marliéria), Sant'Anna do Alfié (São Domingos do Prata), Itambé do Mato Dentro (Antônio Dias) etc.
17- Em 1921 é criada a Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira, fruto da associação da Cia. Siderúrgica Mineira, em João Monlevade, ao grupo belga Arbed. Em 1937, entra em operação a Usina de João Monlevade. Ver Cronologia.
18- As potências aliadas, durante a 2ª guerra, exigem que o Brasil aumente suas exportações. Em 1942, é criada a Cia. Vale do Rio Doce, de capital estatal, com objetivo de explorar e exportar minério de ferro, encampando a estrada de Ferro Vitória Minas. Em 1945, representantes da recém-fundada Cia. de Aços Especiais Itabira - Acesita, efetuam estudos por toda a região para escolher o local de construção de uma Usina Siderúrgica. A primeira opção foi o povoado de Ipatinga, em terrenos pertencentes à Belgo-Mineira, logo descartada pelo alto custo da aquisição. Optou-se, pelo povoado do Alegre, onde os terrenos foram adquiridos a pretexto de empreendimentos agropecuários de pessoa física. Em 1958, os japoneses escolheram os terrenos cobiçados pela Acesita e nele construíram a Usiminas. Ver Cronologia.
19- Em dezembro de 1962, a Assembléia Legislativa de Minas Gerais aprovou a emancipação de 237 municípios, dentre eles Ipatinga e Timóteo Entretanto, o governador Magalhães Pinto vetou a emancipação de ambos e, ainda, de João Monlevade e Bela Vista de Minas. Em 1964, o veto foi retirado e Ipatinga e Timóteo se emancipam. Existem várias versões acerca dos motivos que levaram Magalhães Pinto a autorizar a emancipação, algumas contraditórias: o interesse próprio nas eleições presidenciais que se aproximavam ou influências da cúpula que articulava o Golpe Militar. Ver Cronologia.
20- A trajetória de cada um destes municípios será descrita, a partir de agora, em sua própria história.
21- A Região Metropolitana do Vale do Aço foi criada por lei estadual em 30/12/1998, abrangendo os municípios de Ipatinga, Coronel Fabriciano, Timóteo e Santana do Paraíso.